|
A reflexão sobre o movimento estudantil é de grande importância para o desenvolvimento de qualquer estudante. É por meio da reflexão e das discussões coletivas que encontramos os problemas e as soluções para caminhar pra frente e crescer. A discussão sobre o ME, seu conceito e seus problemas é interessante ao traçar um mapa que nos auxilia a pensar em como nos organizar e planejar nossas atividades. Toda ação deve ser bem trabalhada antes de ser posta em prática, por isso da importância da formação política. Dentro do marco das discussões teóricas, temos esses pontos relevantes que potencializam as atividades do grupo, já num lado mais prático, temos que o ME é um grande complemento na formação de um estudante. Idealmente, o ensino superior é parte central da educação de todo cidadão e, além de um aprendizado técnico-instrumental ele deveria prover educação social - relacionar o ensino com a sociedade e como trabalhar em grupo, por exemplo - e educação comunicativa - como se expressar. Infelizmente as IES hoje mal conseguem fornecer uma educação técnico-instrumental satisfatória, mas o ME reconhecidamente contribui para as outras duas educações, proporcionando uma educação mais completa, ou seja, acima da média. O movimento estudantil é um movimento social formado por estudantes e tem por características básicas sua formação policlassista, transitória e o fato de ser um movimento conjuntural. Se diz policlassista por que estudantes não formam um classe social em si, mas sim um agrupamento de várias origens sociais distintas. Em relação a segunda característica, a condição de estudar é temporária e ficamos, em média, 5 anos na universidade. Com isso, há uma grande rotatividade nas lideranças políticas. Por fim, se diz conjuntural tendo em vista que historicamente o ME reage aos acontecimentos externos, como na ditadura militar, na redemocratização ou no fora collor, para citar alguns exemplos. É importante ressaltar a sua atual natureza reativa, pois discursos correntes que afirmam que o ME está em crise tem sua origem nessa questão. Quantas vezes já não escutamos que o ME está em crise? que ele não consegue mobilizar e promover mudanças pq se encontra em um período difícil? Ao analisarmos historicamente, percebemos que essa característica reativa é parte de sua história recente. As maiores mobilizações e organizações estudantis surgem em momentos de exaltação externa à universidade, mais uma vez, historicamente percebemos como o meio influencia diretamente o ME. Com isso, para que o movimento estudantil possa evoluir, precisa romper com essa condição conjuntural/reativa. O caminho para para que o ME possa se organizar e influenciar seu meio passa por um diagnóstico de 4 problemas a serem batidos: Conjuntura desfavorável Crise de direção / representatividade Estrutura de organização (anti-democrática) Ciclo vicioso O primeiro problema diz respeito ao contexto sócio-político em que vivemos. Várias forças criticam a atual conjuntura e a qualificam como desmobilizadora, individualista, pragmatista e, finalmente, culpam as dificuldades do ME no neoliberalismo. É fato que a conjuntura tem um peso grande no ME e, mais ainda, que ele tem uma atual organização conjuntural, como dito acima, mas mesmo em períodos de contextos favoráveis o ME não conseguiu se articular para vencer essa barreira e influenciar o seu meio, como foi no caso do fora Collor ou da greve do terço em 1962. O atual período dominado pela especulação financeira, redução do papel estatal e maior centralidade aos setores ligados à economia, ou seja, ao mercado, tem um peso significativo na articulação do ME mas, como ressaltado acima, a conjuntura não é o único problema e este pode ser contornado, como veremos a seguir. Em relação ao segundo ponto, o argumento básico que o contesta é o de que “Nós temos que mudar a direção do movimento e colocar pessoas boas”. É bem verdade que temos várias lideranças ruins no ME, mas msm qndo a alternância entre os grupos no DCE ocorre e eles conseguem entrar em DCEs, a cara do ME tende a continuar igual. Um agravante desse ponto é a conseqüente crise de representatividade, que afasta cada vez mais os dirigentes da sua base. Com uma direção desarticulada, sem planejamento e sem orientação/formação política, o trabalho fica prejudicado e acaba por se afastar e não representar mais os estudantes. Se em situações de conjuntura favorável, que é uma condição exterior, o ME não conseguiu mudar a natureza da sua atuação e se mesmo com direções “boas”, ou pelo menos alternativas à hegemônica, tampouco teve sucesso em mudar, significa que existe outro problema. Nesse sentido, a configuração interna, ou seja, a própria estrutura da entidade, é o que dificulta o processo de desenvolvimento do ME. A organização básica do ME é centralizadora, verticalizada e burocratizada. É comum da organização do ME centralizar todas as discussões e decisões, num padrão muito estático e autoritário, sem muita autonomia para suas lideranças. Com isso, temos uma hierarquização muito rígida, que prejudica seu trabalho e o impede de maior desenvolvimento, uma vez que perde toda a dinâmica que pode ter. Por fim, várias entidades se concentaram tanto em tomada de decisões que ficam burocratizadas, sem muita militância e articulação, cimentando as lideranças em tarefas que as afastam politicamente da base. Por fim, esses quatro pontos se somam a falta de uma tradição de continuidade no ME. Com o alto grau de transitoriedade existente e a ausência total de mecanismos de passagem de experiências e de formação política acontece que, de tempo em tempo, CAs, DAs e DCEs são fechados e novos grupos têm que retomar as atividades do zero. Isso limita a capacidade de articulação do ME e sua potencialidade em transformar sua realidade. Esse ciclo vicioso impede que se acumulem experiências e aprendizados, logo, precisa ser vencido para que o ME possa mudar seu entorno. É a partir do rompimento com o ciclo vicioso, com cursos de formação política, com discussões permanentes, com organização, planejamento e avaliação das atividades que se cria uma tradição de deixar para futuras gestões todas as experiências tidas durante uma gestão. Com isso se fortalece o mandato e se faz possível caminhar para romper com a estrutura anti-democrática e com o problema da direção. O intuito é sempre melhorar, sempre buscar novidades que contribuam com o desenvolvimento do grupo.
|